segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Lullaby, op. 3



Andantino molto gentile, para o aniversário da artista Manuela Baptista 


Vieram os pássaros anunciar-lhe ter nascido outra vez, mas nem o senhor Buda ousaria tanto, e se sentia apenas outro reviver. Todo o amarelo dos campos nos falava da primavera precoce, como se primaveras se pudessem ler no surdo cantabile de giestas. Lembrou-se de que a Senhora da Música teria partido e deixado nas areias do jardim um só rasto de sorriso. E pegou-lhe com as duas mãos, e aceitou essa herança de eternidade.

domingo, 11 de outubro de 2015

Kika entre as estrelas



Heart of Wax


Imagem de manuela baPtista, dedicada ao paulo intemporalà la manière de manuela baptista



chegou o outono e ela escondeu-se nas folhas. havia uma voragem pela casa inteira, o rumor vigiado dos budas nas cítaras do sol nascente. as crianças brincavam ao jogo das horas, e escondiam anos inteiros na sombra dos bolsos. os dias do verão passaram, e a estação inteira mergulhou fria nas cores do parque. um dia acordou mais tarde, e a manhã era sem som. olhou para a frente e ela não estava lá. só a reconheceu pelas plumas: tinha levado as brincadeiras para mais longe, silenciosa, um vulto inigualável desenhado no perfil das estrelas.

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

sábado, 18 de julho de 2015

Plutão e Caronte, na aurora extinta da sua fronteira funda (Αποκάλυψη του Ιωάννη)


Heart of Wax


"Jaz Plutão na fronteira de uma luz extinta. Em seu redor, obscuro Caronte, gravita-lhe a pesada lua de um planeta de sombras. Dura-lhe o dia mais do que o ano, as trevas, mais do que a noite, e, em Plutão, o silêncio nem sequer agora finda. Subterrâneos, lhe são os deuses, e avessos quaisquer destinos. Nele, mais do que crepusculares, coisas poucas reconhecemos, que ora nos façam ansiar ver para além de tais profundidades, pois, um dia, os astros tornarão a conjugar-se numa mesma forma simples, onde tudo será similar, e João voltará a sentar-se, em Patmos, para redigir a sua Revelação, e também eu tornarei a sentar-me aqui, a escrever este texto, num Tempo, cujo ciclo será vizinho do infinito, e, então, nós igualmente voltaremos"